Uma viagem de (auto)amor

Esse texto começou a ser escrito na volta da minha última viagem. Uma viagem despretensiosa e, ao mesmo tempo, cheia de significados!

Despretensiosa porque não foi exatamente planejada. Encontrei uma passagem promocional na Black Friday e aqui estou.

Cheia de significados por consequência do meu momento de vida e das reflexões que ela me trouxe. Não foi a primeira vez que eu viajei sozinha, mas dessa vez foi diferente. E eu achei que valia a pena compartilhar minhas reflexões com vocês. Porque eu sei que muitas de vocês passam por coisas bastante semelhantes e, de alguma maneira, o relato da minha experiência pode acabar sendo útil.

Uma crise antes da viagem

Se você me acompanha há algum tempo viu que em Janeiro de 2019 eu falei pela primeira vez sobre uma tal crise que andava me acompanhando. Os últimos dois anos foram bem esquisitos por aqui. No meio desse caminho uma pessoa certa vez me disse, enquanto eu me queixava sobre a vida: “você está passando por isso agora para que aprenda e, quando estiver maior, não repita mais o mesmo erro!”

uma crise antes da viagem
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Eu ainda não sei exatamente do que esta pessoa estava falando porque, minha gente, eu posso fazer uma lista de aprendizados! Contudo, o que eu sei ao certo é que nesse período eu fui, pouco a pouco, abrindo mão de mim mesma e da minha história.

Resgatando histórias

A parte engraçada é que o meu trabalho é justamente ajudar vocês a resgatarem vocês mesmas e a história de vocês, reconhecendo e reintegrando partes essenciais, para que se tornem mulheres inteiras e poderosas. E lá estava eu, em meados de 2019, tendo que puxar a mim mesma! Afinal, psicólogo também é gente e também cai. A vantagem é que, a gente tende a saber como funciona o caminho de volta pra casa!

Quem costuma me ajudar muito nessas horas é Brené Brown. Sempre que começo a ficar muito perdida, recorro aos seus livros. Dessa maneira, o escolhido da vez foi “A coragem para liderar: trabalho duro, conversas difíceis, corações plenos”.

A linha de pesquisa da Brené conversa diretamente com a abordagem que eu utilizo na minha atuação clínica, que foi escolhida, muito provavelmente, por influência da própria Brené. Na época minha terapeuta me recomendou a leitura do “A coragem de ser imperfeito” (Obrigada Max!). E hoje esse livro é campeão nas minhas recomendações de leitura. Além disso, boa parte do meu trabalho é pautada no conceito de abraçar a própria vulnerabilidade e viver com ousadia. Aliás veja bem a descrição da linha teórica que eu mais uso na prática clínica:

Trata-se de um modelo de flexibilidade psicológica trabalhada através da autoconsciência, aceitação, atenção plena ao momento presente, contexto e ações de compromisso baseadas em valores.

Acceptance and Commitment Therapy – The process and practice of mindful change (Steven Hayes, Kirk Strosahl, Kelly Wilson

Tudo a ver, não é mesmo?

Estamos aqui para criar vínculos!

Estamos nesse mundo para criar vínculos com outras pessoas. Fomos concebidos para nos conectarmos. É essa conexão que dá sentido e propósito a nossa vida! Sem ela, sofremos. Dessa maneira, a nossa imagem é talvez a mais poderosa ferramenta que temos para criarmos essa conexão de maneira instantânea. Por isso ela é tão poderosa e apresenta tanto potencial para promover sofrimento ou bem estar, dependendo da forma como lidamos com ela.

Foto da viagem nas Dunas de Genipabu-RN
Portanto, para se ter uma boa relação com a própria imagem e com todos os conceitos de beleza e padrão que existem, é preciso abraçar a própria vulnerabilidade e aprender a viver com coragem. Coragem de ser quem se é!

Você pode estar se perguntando: mas como é que eu vou saber quem eu sou com tanta careza assim?

Pois bem! O ponto central, na minha opinião, na Terapia de Aceitação e Compromisso e, conforme descrito com unanimidade pelos meus clientes como a etapa mais transformadora de todo o processo de se (re)descobrir é o reconhecimento dos próprios valores pessoais!

A viagem mais importante: reconhecer seus valores pessoais

Nas últimas semanas eu escrevi um post falando sobre cabelos. Nele eu contei para vocês sobre o meu processo de reconhecimento dos meus valores pessoais. Ele começou, primeiramente, na minha terapia pessoal e o ciclo se fechou no processo de coaching psicológico que eu passei em 2016. Porém, o processo terapêutico não se encerra quando saímos do consultório, as reflexões permanecem e, até hoje, eu me pego recolhendo fichas que estão caindo desde aquela época! Imagino que deva ser assim com as minhas clientes também.

Pois bem, eu comentei que sempre recorro à Brené quando me vejo no escuro, certo? Estava eu lendo seu último livro e ela diz assim:

“nós só temos um conjunto de valores. Não mudamos nossos valores de acordo com o contexto […] a tarefa é escolher os DOIS que você considera mais importantes […] se você tem mais de três prioridades, não tem nenhuma. Em algum momento, se tudo na lista for importante, nada vai ser realmente uma motivação para você.”

A minha lista de valores pessoais tem aproximadamente dez itens. Dentre esses, selecionar os dois mais importantes foi, talvez, o parto mais importante da minha vida até então.

Meu valores pessoais

O primeiro foi fácil: lealdade! 2019 havia me trazido situações que deixaram isso bem claro! Eu nem hesitei! O segundo só ficou claro, posteriormente, depois dessa última viagem!

Anteriormente eu falei pra vocês que, quando fui submetida à ferramenta de valores, ao ser questionada sobre as cinco coisas mais importantes da minha vida, a primeira resposta foi “cabelo”. A segunda foi carro!

carro: meu companheiro de viagem
Meu companheiro de viagem: foram 5 dias, 500km, 10 praias!

Eu sempre gostei de carro, portanto sempre quis dirigir. Fazer 18 anos pra mim significava poder tirar minha CNH. Entretanto, em 2018 eu vendi meu carro e passei utilizar o transporte por aplicativos.

Nessa viagem eu decidi alugar um carro (foi a primeira vez que eu fiz isso) e a minha hipótese sobre o meu segundo valor mais importante foi confirmada. A liberdade de estar no comando do meu trajeto, dos horários, dos destinos me vez ter certeza: era independência, autonomia ou liberdade. Chame como quiser!

E foi então que a ficha caiu! Eu estava tão perdida porque não estava sendo leal à mim mesma, aceitando situações que até os mais crentes desacreditavam e, de alguma maneira, estava abrindo mão da minha autonomia!

A viagem de volta!

Por consequência, todo esse complexo processo que eu vivenciei nos últimos anos me fez olhar para trás. Para as minhas raízes! Me fez sentir necessidade de retomar e re(conhecer) minha história. Era hora de voltar para casa, mas dessa vez para a casa completa e não só metade dela!

Esse é um dos processos emocionais mais bonitos de se viver e de se acompanhar, enquanto psicóloga. Ele é fundamental para que nos tornemos grandes e inteiros. E, antes que você se angustie por aí, essa casa à qual eu me refiro está dentro de você! Mas isso é assunto para outra hora!

Pra quem ainda não sabe, eu fui criada pela minha avó e pela minha mãe. Cresci em uma família extremamente matriarcal há gerações! O aprendizado da independência veio do berço, às vezes implícito, às vezes explícito, às vezes carregado de mágoas, mas sempre cheio de esperanças!

Posso dizer que eu absorvi bem esse aprendizado, mesmo que em alguns momentos tenha me esquecido dele. Mas aquela pessoa que eu comentei no início do texto estava certa: não me esquecerei mais!

Aprendizados

Dessa maneira acho que seja válido listar algumas das coisas que eu aprendi e que, sempre que tenho oportunidade, acabo compartilhando entre os mais próximos:

  • Saiba fazer tua própria comida;
  • Lavar tua própria roupa;
  • Limpar tua casa;
  • Gerir teu próprio dinheiro;
  • Trocar teu próprio chuveiro;
  • Rebocar e pintar as próprias paredes;
  • Trocar torneiras, tomadas, interruptores e afins;
  • Entenda a mecânica do seu carro;
  • E por aí vai…

Eu acrescento dois aprendizados indiretos (porque a gente também aprende com a falta!):

  • Cuide do seu corpo para que ele dê conta de fazer tudo o que você quiser fazer.
  • Cuide da sua saúde emocional, para ter equilíbrio, coragem e resiliência para viver de peito aberto e cabeça erguida a aventura instável e impermanente que é a vida!

Eu já assustei muita gente sacando martelos e chaves de fendas da bolsa em momentos aleatórios, mas sempre úteis! Podem parecer coisas simples, rotineiras, corriqueiras. Tem gente que me acha estranha! Kkkkk Mas não se enganem! Tudo isso tem um nome: é independência!

Martele como uma garota!

Eu fui uma criança metida a adulta e dona do próprio nariz. Não pedia muitas autorizações e minha avó sempre reforçou muito isso! Hoje eu entendo que muitas vezes a solidão e o desamparo que eu senti em muitos momentos foram na verdade as melhores bases que eu poderia ter! Vovó, mesmo sem saber, é uma das mulheres mais feministas que eu conheço. E depois dos tropeços da vida, fez questão de criar uma neta dona do próprio nariz sim!

Talvez por isso viajar sozinha, ou até mesmo o temido ir ao cinema sozinha, não sejam questões tão temidas por aqui.

Por que dessa vez foi diferente?

Em algum momento eu fui deixando de acreditar nessa autonomia que me foi ensinada. Chegando ao ponto de me questionar se conseguiria gerir minha própria vida sozinha.

Muitas mulheres que chegam até o meu consultório estão passando por situações semelhantes e me ver nessa situação foi bem impactante. Talvez por isso essa volta por cima tenha sido tão significativa.

Tendo tudo isso em mente acho importante dizer que o que fez dessa viagem diferente das outras que eu já havido realizado sozinha foi uma soma de fatores:

  • eu estava 100% a lazer, não tinha agenda de estudo ou trabalho que me fizessem estar lá. Fui apenas porque quis ir e sabendo que iria sozinha.
  • eu estava no controle do meu roteiro e destinos, sem agências, grupos ou passeios. Éramos somente eu e meu companheiro de quatro rodas!
  • estava (estou) solteira – pode parecer bobo, mas pra mim é um ponto bastante relevante “não ter para quem voltar” ou não ter alguém para ficar de papo, dando satisfação, no whatsapp/ligação.
  • não tinha ninguém para dividir os custos, paguei tudo 100% sozinha.

Esses não são fatores essenciais para que uma viagem, ou uma experiência, seja marcante! Eles foram relevantes no meu contexto, porque me ajudaram a me mostrar que eu podia sozinha! Você vai precisar descobrir qual é a sua soma de fatores!

Finalmente sobre a viagem para Natal/RN

Voltar ao nordeste, que é de longe, a região que eu mais gosto nesse país, sozinha, pagando todos os boletos integralmente (rsrsrs), dirigindo meu próprio carro, fazendo meu roteiro, no meu próprio tempo, foi como bem disse @tchulim:

“Finalmente me acolhi, me dei colo e carinho. E falei pra mim mesma que estava orgulhosa.”

Fotos para viagem para Natal/RN

Orgulhosa de mim mesma! De me permitir me conhecer profundamente, de olhar nos olhos e dizer “oi, senta aqui comigo”. E de não permitir que isso se perca nunca mais!

Eu não estava sozinha! Estava na minha própria companhia. E pela primeira vez em que viajava assim, sozinha, não senti medo ou preguiça. Pelo contrário, estava animada, destemida, corajosa, de peito aberto.

Eu também chorei, nem sei quantas vezes! (ps: eu sou muito chorona gente!) E choro de novo escrevendo esse texto. Choro de alegria, de gratidão, de emoção, em honra a todas que vieram antes de mim e a todas que ainda virão a partir de mim!

Compreender tudo que me trouxe até aqui e que me fez ser a mulher que eu sou, com os valores que eu tenho foi fundamental para fechar esse ciclo e me abrir para um novo momento de vida. Mais forte, mais eu!

O sol não sai do seu caminho…

É como dizem: te vira linda. Ninguém vai fazer por você… E tenha cuidado redobrado com os bem intencionados que aparecem querendo fazer! Não existe almoço grátis! Não coloque o seu poder pessoal nas mãos de outra pessoa, seja ela quem for!

E se precisar de ajuda para se re-conhecer, para recuperar seu poder pessoal e se re-formar é só me chamar! Disso eu entendo bem!

“O Sol não sai de seu caminho para iluminar os outros planetas, mas mesmo assim tem importância e faz um bem sem fim. Saiba brilhar, mas da maneira e dentro dos limites que te fazem bem”

Tatiana Navega

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