aparência

Para quê você quer melhorar a sua aparência?

Eu venho falando nas últimas aulas dos grupos de estudos bastante sobre esquiva experiencial. É um assunto bastante recorrente quando lidamos com aparência e imagem pessoal.

Hoje de manhã estava lendo o livro “Acceptance and Commitment Therapy for Body Image Dissatisfaction” (PEARSON et al, 2010) e me deparei com um exemplo que é muito parecido com o que eu costumo falar com as minhas alunas. Vejam só as estratégias adotadas por essa pessoa:

“ eu trabalhei com uma consultora de beleza que me aconselhou sobre qual a melhor maquiagem para melhorar minha aparência […] gastei centenas de dólares em diferentes perucas […] tentei diversas dietas para manter meu peso e visual como eram antes do câncer […] eu comecei a beber vinho todas as noites porque não conseguia dormir […] passei horas experimentando as roupas que eu usava antes do diagnóstico, olhando fotos antigas para comparar minha aparência…”

(o relato completo pode ser lido na página 74-75 do livro).

O que é esquiva experiencial?

A esquiva experiencial acontece quando não desejamos ou não conseguimos permanecer em contato com pensamentos e/ou sentimentos que para nós são incômodos ou dolorosos.

Na tentativa de controlar, silenciar e eliminar esses pensamentos e sentimentos indesejáveis nós passamos a emitir comportamentos compensatórios.

Lendo o relato citado anteriormente, é possível perceber que o problema dela não era seu peso ou sua aparência. Desde o momento em que recebeu o diagnóstico, ela tentou diversas estratégias para esconder sua doença e, mais importante, para suprimir os sentimentos que ter uma doença naturalmente evocam. Ela nunca se permitiu sentir o medo, a perda, a raiva que naturalmente surgem durante um tratamento de uma doença. A ênfase que ela deu para sua aparência funcionou, a princípio, porque essa é uma área da vida que normalmente conseguimos mudar e controlar.

Esquiva na Consultoria de Imagem

O mesmo pode estar acontecendo com um exemplo típico do que aparece para consultoras de imagem, citado por Souza (2012): “mulher separada que por baixa autoestima não consegue valorizar seu corpo.”

Na consultoria de imagem é fundamental compreender como esse processo funciona. Porque o corpo, pela sua materialidade, é muito mais controlável e gerenciável do que nossos pensamentos e sentimentos.

Se eu te pedir agora para não pensar em um copo de água, muito provavelmente a primeira imagem que virá a sua cabeça será a de um copo de água. E se, após isso, eu te pedir para controlar esse pensamento, parando de pensar nisso, você terá dificuldades para executar essa tarefa.

Porém, se eu te pedir para fazer as unhas semanalmente essa é uma ação muito mais factível, mesmo que possa durar apenas temporariamente, não é?

Como vivemos numa cultura que postula que “o normal é se sentir bem” e, mais atualmente, “que o normal é ter autoestima alta”, nós nos tornamos hábeis esquivadores.

E o nosso corpo, pela importância que tem na nossa vida, tende a se tornar uma das nossas principais ferramentas para isso.

Focando na aparência para não lidar com problemas mais difíceis

Na tentativa de controlar pensamentos e emoções indesejadas, focamos em nossos corpos, comida, calorias, roupas, estilo, imagem, etc., como forma de evitarmos tópicos mais difíceis (ou menos controláveis) de lidar.

E, se não prestarmos atenção, a consultoria de imagem vira mais uma forma de esquiva e nós, ao invés de promovermos mais autoestima, apenas munimos nossas clientes com mais estratégias de controle que, tem como consequência, a queda da autoestima.

Diversos estudos vêm demonstrando como estratégias focadas no aumento da autoestima NÃO FUNCIONAM.

Evidências robustas sugerem que intervenções com o objetivo de aumentar a autoestima acabam, na verdade, aumentando as preocupações em relação à imagem corporal e, portanto, o nível de insatisfação (O’DEA, 2004),

Quando uma pessoa nos procura com a demanda de aumentar a autoestima o que ela na verdade está nos dizendo é que ela deseja mudar o que ela sente e pensa sobre si mesma. Se acatamos essa demanda sem uma melhor compreensão estamos, na verdade, ajudando o cliente a se engajar em mais esquiva experiencial.

A luta pela autoestima é um problema, não uma solução!

A luta pela autoestima, que é uma forma de esquiva experiencial, afasta as pessoas de estarem em conexão com o mundo ao seu redor e as colocam numa busca incessante em mudar o que elas pensam e sentem sobre si mesmas. Por isso, podemos dizer que a luta pela autoestima é um problema na clínica, não uma solução!

A correlação entre se vestir bem e possuir uma boa autoestima é bem conhecida no senso comum. Entretanto, evidências demonstram que o comportamento de se preocupar com a própria aparência e se vestir bem pode ser um indicativo do exato oposto (TRAUTMANN; WORTHY; LOKKEN, 2007), reforçando a esquiva experiencial (MARSHALL et al, 2015) e aumentando preocupação com a imagem corporal e a insatisfação corporal (WASYLKIW, MACKINNON E MACLELLAN, 2012).

Sob o discurso da autoestima, criam-se formas ilusórias de autoestima que se mostram, na verdade, como outras restritivas tentativas de adequação a um ideal, normalmente magro (PEARSON et al., 2010).

Uma abordagem qualitativamente diferente!

É urgente a necessidade de repensar a forma como fazemos consultoria de imagem! É urgente munir consultoras de conhecimentos psicológicos, mas não esse conhecimento psicológico superficial e não embasado cientificamente que já é amplamente disseminado na área e muito usado para justificar intervenções muitas vezes desastrosas.

É urgente dar embasamento para o trabalho de consultoras e ensiná-las o que é psicologia científica de verdade!

É bastante comum dizer que consultoria de imagem é sobre pessoas e não roupas. Mas será que estamos mesmo olhando e cuidando das pessoas ou apenas vestindo corpos e chamando isso de autoestima?

Referências:

MARSHALL, Sarah L. et al. Self-compassion protects against the negative effects of low-self-esteem: a longitudinal study in a large adolescent sample. (2015). Personality and Individual Differences, 74, 116-121.

O’Dea, J.A. (2004). Evidence for a self-esteem approach in the prevention of body image and eating problems among children and adolescents. Eating Disorders, 12, 225-239.

PEARSON, Adria N.; HEFFNER, Michele; FOLLETE, Victoria M. Acceptance and Commitment Therapy for Body Dissatisfaction: a practitioner’s guide to using mindfulness, acceptance and values-based behaviour change strategies. Oakland: New Harbinger Publications Inc., 2010.

SOUZA, Josenilde S. Consultoria de Imagem e Visagismo: novos desafios de mercado. dObra[s], v.5, n.12, 2012.

TRAUTMANN J. WORTHY, S.L.; LOKKEN, K.L. Body dissatisfaction, bulimic symptoms, and clothing practices among college women. J Psychol. 2007 Sep; 141(5): 485-98.

WASYLKIW, Louise; MACKINNON, Anna L.; MCLELLAN, Aleka M. Exploring the link between self-compassion and body image in university women. (2012). Body Image: 9, 236-245.

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